  Livro: O milagre de cada dia


  Autora: Giselda Laporta Nicolelis


  7 edio


  Editora: Scipione


  Ano: 2003


  Transcrito por: Anair Meirelles


  Uso exclusivo dos alunos do Instituto Santa Luzia

  (p. 5)

  1. A aurora

  Nasceu de uma promessa ao sagrado corao, e por causa da promessa s podia ter um nome...
  Quando foi levado a pia batismal, o padre perguntou:
  -- Como  o nome do menino?
  -- Jesus.
  -- No pode,  sacrilgio...
  -- Pode sim, seu padre, o nome do meu filho  Jesus - repetiu a Eunice, operria numa fbrica de sardinhas.

  (p. 6)

  Limpava sardinhas o dia inteiro, com as luvas de borracha, o cheiro de peixe entrando narinas adentro. Era to mecnico aquilo tudo que ela s vezes sonhava que estava limpando sardinha. Tambm no comia sardinha nem morta.
  O padre suspirou. Tanta promessa, meu Deus! Como explica para gente simples que morava ali no bairro que no ficava bem ir pondo nome de Jesus a torto e a direito,  guisa de promessa.
  O garoto chorava no colo da madrinha, que suava, metida no vestido novo, se equilibrando nos sapatas altos que ela comprara especialmente para o batizado.
  -- Por favor, seu padre...

  (p. 7)

  A me tinha olhos de espera, de uma tristeza profunda. Gente que sofria muito, o padre sabia. O pai era motorista de nibus, hora sem fim naquela volante, dirigindo no trnsito louco da cidade.  Agora o nico filho, depois de muito tempo de espera.
  -- Que h com Eunice? - perguntavam as comadres nas filas de carne ou do po.
  -- Oveiro virado - diziam as vizinhas.
  Custou, mas engravidou. Agora o menino chorava em frente  pia batismal, o padre indeciso. At que resolveu:
  -- Seja tudo pelo amor de Deus. Eu te batizo, Jesus, em nome do Pai, do Filho, e do Esprito Santo...
  Jesus batizado, chorou  vontade quando sentiu o sal na lngua, a fora da vida - ser que pressentiu sua saga, seu destino? Em volta dele, como se fosse mesmo Santssimo Trindade, estavam o pai e a me, sorridentes, o primeiro filho, macho e saudvel, para continuar a vida e os sonhos, parir novamente a vida deles, numa entrada  de esperana e luz.
  Teve festa depois, convidaram o padre, ele foi. Padre moderno, que no usava batina, pra espanto da av e das mulheres mais velhas, que se benziam:
  -- Padre pra mim era de antigamente, tudo nos conformes...
  Ao que a Eunice replicava, servindo os salgadinhos:
  -- Padre Osrio  tima pessoa. Bobagem essa histria de batina. Roupa no faz o padre...
  -- Ser - A av mordia com os poucos dentes que lhe restaram o sanduche de pat. -- Sardinha minha filha?

  (p. 8)

  Eunice se benzeu tambm:
  -- Deus me livre!  de fgado v.
  Jesus agora dormia, feliz, no bero, presente da madrinha. Tinha mamado sfrego no peito da me, felizarda com leite jorrando como de uma torneira de vida... Tinha tanto que at ajudava a amamentar a criana da vizinha, que chorava de fome, porque a me no tinha leite nem dinheiro para comprar leite em p. O problema era o trabalho. Quantas vezes, limpando as malditas sardinhas, sentia os peitos incharem e os olhos marejarem de lgrimas, porque a final seu menino Jesus chorava de fome e de saudade, l na casinha humilde, onde uma menina da vizinha olhava ele, esquentando as mamadeiras que ela deixava pronta na geladeira, o leite tirado s pressas do seu seios trgidos. Vontade de correr e dar leite pro seu filho amado, de grandes olhos curiosos - esse filho que iria crescer e se tornar um homem - o que seria ele, meu Deus? Um artista, um doutor, de canudo e anel no dedo.
  Se Eunice pudesse escolher - na estrada linda de sonhos, enquanto limpava as abenoadas sardinhas -, ela iria querer uma coisa s: que o seu Jesus fosse muito, mas muito feliz. Que crescesse com sade, jogando bola, trocando tabefes com a molecada, risonho e contente, bem alimentado - ah, a comida andava to cara!... Cada vez ela gastava mais naquela feira e trazia menos coisa pra casa. Por enquanto Jesus s mamava no peito, abenoado aquele leite que jorrava tranqilo e forte como uma fonte de vida..., branco, semidoce, no ponto exato do calor e da ternura, aplacando a fome e aplacando as dores das mamas, que estalam de tanto leite. s vezes at jorrava sozinho, empapando sua blusa, escorrendo pelas pernas. Ser que Jesus chorava de fome, l no bero da casa pobre?

  (p. 10)

  O pai, Jos, era motorista havia dez anos. Trabalhava dezesseis horas por dia, naquele trnsito infernal. Tinha de tudo dentro do nibus: gente que passava mal, brigas... Outro dia ele contou uma coisa incrvel: subiu um casal com uma menina pequena. Da a pouco a mulher deu o sinal, o nibus parou no ponto. Ento o casal desceu, rpido, deixou a menina sozinha, abandonada l no banco, em prantos, numa gritaria que encheu de pavor e espanto o nibus, que j estava em movimento.
  -- Pra, pra!!! - pediram os passageiros indignados.
  Cad o pai, cad a me? A menina olha ao redor e v caras estranhas, ento grita e se retorce, como um animal acuado.
  Os pais j vo longe, meio quarteiro de distncia, entre a primeira e segunda parada do nibus. Deu tempo de se escafederem, tranqilos, virando a esquina, atravessando a rua, perdendo-se na multido. E a menina, que fazer com ela? Algum se levanta decidido, um homem de meia idade;
  -- Deixe que eu cuido disso, eu corro atrs deles.
  O homem pega a mo da menina transida de pavor, desce com ela, enquanto uma mulher pede, talvez num timo de lucidez:
  -- Cuida bem dessa criana,  homem...
  Descem. A menina ainda resiste no Patamar da escadinha, o homem a puxa pela mo. E se perdem na multido, enquanto o nibus reinicia a jornada,  os comentrios l dentro:

  (p. 11)

  -- Ser que agente fez bem em deixar a menina com ele?
  -- U, porque no? Parecia um bom homem...
  -- E se ele no entregar a menina?
  Melhor seria ter dado ela pra um polcia...
  Tarde de mais. Os olhos de Jos, l no volante, se enchem de lgrimas, lembrando o seu menino Jesus, em casa. Pobre criana, essa menina abandonada pelos pais, num banco de nibus, como uma trouxa de roupa suja. Devia ter levado ela pra casa, seria a irm de Jesus - o que Eunice diria? Mal d tempo de encher as mamadeiras, sair correndo pra fbrica, vestir aquelas luvas que guardam o cheiro visceral. Tempo ruo, em que se abandonam crianas como trouxas - ser que aquele velho vai cuidar mesmo da menina; ser que achou os pais dela na curva da esquina? E mesmo se achasse, eles no iriam jog-la mais adiante, em outro nibus, na porta de uma casa qualquer, com um recado; ou talvez nem isso, criana descartvel... Algum toca o sinal, ele pra o velho nibus.

  (p. 12)

  De noite, cansado, estropiado, vai contar tudo pra Eunice, como sentiu profunda pena daquela menina abandonada. Apavorada, que ainda empacou na escadinha, no querendo descer do nibus.
  L na fbrica, limpando as terrveis sardinhas, Eunice lembra do olhar de Jos, contando essa histria, uma mgoa sentida, uma profunda impresso de agonia.
  -- Voc abandonaria Jesus? - ele perguntou a mulher, que at se benze.
  -- Nunca! Nunca! Que histria mais louca! Eu seguiria o meu filho at o fim do mundo, nem que fosse da agonia.
  Soa o apito, fim do dia, cinco horas. Eunice tira as luvas fedidas, vai pro lavatrio da fbrica, lava que lava as mos, o rosto... quer tirar aquele cheiro de peixe dos seus dedos, das suas narinas, de dentro dela. Pe o vestido, joga o avental no cesto, apanha a bolsa e sai, lpida e feliz a caminho da casa. Ainda tem de apanhar a conduo, quase uma hora na fila, outro tanto dentro do nibus, mas agora  uma hora feliz, esta a caminho de ver o seu Jesus - menino, que a essa altura tomou seu banho e espera a hora da festa, da mamada da noitinha, quando a me volta do trabalho...
  Cansada, desce do nibus, avista a casinha de janelas verdes... abre o porto, passa pelo canteiro de hortnsias, espanta o cachorro da vizinha que come suas flores - o danado gosta de flores, j se viu cachorro mais maluco? Vem um grito da vizinhana,  uma criana que apanha. Ela se arrepia toda, tem horror de criana apanhando, acha uma violncia; jurou que nunca encostar um dedo no seu amado Jesus...

  (p. 14)

  Gira a chave na fechadura, um cheiro de feijo no fogo vem da cozinha, onde a Nilce, a garota que a ajuda, j esta adiantando a janta. Um chorinho de beb escapa do quarto, que tem a porta aberta. Ela se precipita,  Jesus chorando de fome; ela j vai tirando a blusa, soltando os seios; segura com amor aquele filho tanto esperado, e num timo ele j lhe suga o leite, com estalidos de gozo, de prazer e de encanto, enquanto ela diz, carinhosamente:
  -- Mama, mama, meu filho, que a me esta aqui pra te matar a fome...
  Logo mais Jesus, saciado, adormece em seus braos, uma brisa leve l fora balana as cortinas rendadas, trs o cheiro das hortnsias do jardim, pra embalar o sono de Jesus - menino no seu bero de madeira.

  (p. 15)

  2. A primeira infncia

  Quando Jesus tinha dois anos a menina que cuidava dele, a Nilce avisou:
  -- Dona Eunice, eu vou embora...
  Um soco na boca do estmago:
  -- Embora por qu? Jesus precisa de voc, eu preciso...
  -- Cansei de ser domstica, vou trabalhar numa loja.
  Arrumou a trouxa e saiu da casa. E agora Jos?

  (p. 17)

  Jos disse:
  -- O jeito  voc arrumar uma creche para deixar o Jesus...
  -- Se ao menos a fbrica tivesse creche...
  -- E no tem a lei que diz que toda a fbrica com mais de trinta funcionrios tem de ter creche?
  Eunice sorriu triste:
  -- E quem  que cumpre a lei neste pas? Fica tudo no papel.
  Jos coou a cabea, desnorteado. O salrio da mulher importava muito na receita do casal. No podiam passar sem ele.
  -- E no tem nenhuma creche pelo bairro, Eunice?
  --  longe, carece tomar conduo. E ainda precisa ver se tem vaga...
  -- U, mas me disseram que tinha uma creche bem ali na esquina...
  Eunice at riu:
  -- Ter, tem. S que foi s pra efeito de eleio. Abriram a creche, inauguraram at com banda de msica. Agora o mato cresceu em volta, s tem barata por l, uma vergonha...
  -- E como  que agente faz? - perguntou o Jos, j atrasado para o trabalho.
  -- D-se um jeito, pobre sempre acha um jeito.
  Eunice pegou a bolsa e saiu correndo pra fbrica, deixando Jesus com uma vizinha de boa vontade, que se prontificou de olhar o menino at ela conseguir uma creche, fosse onde fosse, mesmo no fim do mundo.
  Limpando as gordas sardinhas, sentindo o gordo leite escorrendo pelo corpo, enquanto Jesus tomava leite requentado l na casa da vizinha, Eunice pensa que pensa na sua vida. T tudo errado, ora se est. Que maravilha se todos cumprissem a lei e Jesus estivesse ali do seu lado, na fbrica. Era lavar as mos, tirar o avental e ir dar de mamar ao seu menino, tranqilo, no bero,  espera da me, como outras crianas de outras mulheres, que como ela deixavam filhos pequenos em casa, mal cuidados na maioria, com crianas vizinhas, que houvesse para resolver a situao.

  (p. 18)

  At sentiu o cheiro bom do corpo do filho, o cabelo lavado com xampu, apele macia. A boca gulosa sugando seus seios, pedindo mais, aquele filho to esperado, que demorou para tanto vir. Meu Deus, que alegria quando falhou a menstruao e ela s no espanto divino, sem coragem de acreditar no milagre, sem coragem de dizer ao marido que esperava aquilo havia tanto tempo. "voc vai ser pai Jos"!
  At que um dia no agentou mais. A dvida, a alegria contida, comprou o teste na farmcia, caro pra burro, e numa manh de domingo, enquanto o marido jogava uma partida no campinho l perto, com a molecada da vizinhana, ela fez tudo que a bula mandava; quando entrou pra saber a resposta no banheiro, l estava o crculo mgico que dizia: gravidez.


  (p. 19)

  Esperou Jos com um sorriso novo. Nem bem ele entrou porta adentro, foi gritando:
  -- Que tal se sente o novo pai?
  -- Que histria  essa, Eunice? - riu o Marido.
  -- Que pai  esse?
  -- Voc meu amor.
    Jos at mudou de cor, uma alegria louca no rosto magro. Pegou a mulher no colo, girou com ela pela sala ensolarada, querendo e no querendo acreditar na boa nova:
  -- C jura, Eunice?
  Eunice tambm ria:
  -- O Teste deu positivo, dizem que no erra.
  Em todo caso, levo urina amanh para o laboratrio, confirmar de vez...
  -- E vai no mdico, fao questo, ver se tudo est nos conformes. Que notcia boa, minha santa, era o que eu mais queria na vida...

  (p. 20)

  O corpo crescendo, os seis ficando trgidos, tudo mudado... de vez em quando aquela nsia louca, em cima das sardinhas - ah, malditas - ,  o estmago revirando, e ela correndo, de luvas e tudo, vomitar no lavatrio das mulheres, as outras escondendo:
  -- Finge, eunice seno  capaz de te darem o bilhete azul. No gostam de grvidas por aqui... exigem at teste de urina quando contratam mulheres, no foi assim contigo?
   Eunice lembra que foi. Meu Deus, no pode ser despedida agora; tem o enxoval do beb pra fazer, tanta coisa pra comprar, bero, carrinho... A mdica do INAMPS receitou umas vitaminas; disse que ela est meio fraca, anmica. Precisa se cuidar e ao menino. Engraado, ela diz "menino".Toda ela sabe que vai ser um menino. Jos queria menina, adora meninazinhas de tranas e fitas. Eunice garantiu:
  -- Fica pra depois, porque este  menino...
    De onde lhe vem essa certeza, essa mgica certeza? Logo mais o afeto j mexe dentro dela, se vira todo na sua barriga, que cresce e arredonda, estica o avental, at que no d mais pra esconder, pra controlar mais aquela fora de vida, e algum um dia,  queima roupa:
  --U, t grvida, mulher?
   A noticia se espalha como rastilho de plvora.
   Logo toda a fbrica sabe, que remdio.  chamada na seo pessoal, onde a chefe, uma antiptica, lhe adverte: toda a mulher tem o dever de comunicar sua gravidez ao empregador, sob pena de perder seus direitos etc., etc., etc. Eunice no sabia? Saber, sabia, mas no confiava. J tinha ouvido tantas histrias... A chefe tambm diz, Alto e bom som, pra servir de aviso a todas as mulheres que limpam as abenoadas sardinhas o dia inteiro:

  (p. 21)

  -- Hora ruim pra engravidar, Eunice, tempo de produo em massa. Mas se trabalhar direitinho tudo bem. No quero chiliques perto das outras, seno vira moda. Vocs deviam controlar mais essas coisas...
  -- Coisa, que coisas? - Eunice olha sem entender.
  A outra desconversa, e ainda passa um sermo sobre os deveres dos funcionrios, melhor dizendo, das funcionrias, que no   toa que do preferncia a solteiras, que no tem filhos, problemas...
  -- Solteiras no tem filhos? Desde quando, Dona Guiomar?

  (p. 22)

  Eunice at ri. Que coisa gozada a outra disse!  T cansada de ver me solteira;  o que mais tem no bairro em que ela mora, onde os homens se escafedem, fcil e deixam as companheiras, solteiras na maioria, cuidando da prole, s vezes de mais de um companheiro. Que besta essa Dona Guiomar, pensa que entende de tudo e nem sabe de metade da vida...
  -- Pode ir Eunice - diz a chefe.
  E Eunice volta pras sardinhas, um nojo, aquele cheiro varando a sua garganta, a sua gravidez, a sua sensibilidade. Se imagina  beira de um rio, deitada na grama curtindo o cheiro de gua, de planta, o sol batendo nos seus cabelos, enquanto o seu menino que vem vindo, vindo, se vira dentro dela, naquele saco d'gua que   vida, tranqilo e feliz. Ento ela canta um acalanto:
  -- Dorme meu filho amado, que eu velo por ti...
  E as sardinhas chegando na esteira, gordas, metlicas, horrendas. E ela cala as luvas gordurosas, toma da tesoura mecanicamente...Os peixes no carregam os filhos, desovam nas guas; apenas as baleias e os golfinhos so mamferos.
  Ah, as baleias... aqueles  seres lindos, sobre os quais viu um programa na TV, aquele bal estupendo quando a baleia pare o filho, numa reviravolta que   um salto, um grito, uma aleluia...E o beb-baleia explode para a vida, e sai nadando, e subindo  tona,  procura do ar e da vida...
  Seu filho seria assim, como um bebe-baleia, explodindo numa manh ensolarada, sem dor nem medo...apenas uma exploso de vida e beleza para a luta mais tarde...

  (p. 24)

  E ali, Limpando as sardinhas prateadas, que foram vivas um dia e nada mais so que um cardume de mortos para sustentar os vivos, ela se lembrou da promessa ao Sagrado Corao e fez uma prece:
  -- Cuida bem do meu filho, afinal vou botar nele o nome de Jesus...
  A tesoura abre o ventre da sardinha; tudo aquilo explode, ela sente nusea terrvel, sai correndo, vomita tudo o que comeu no almoo, suando, invadida por um tremor, um glido pavor... os arpes, a baleia ferida de morte, rolando sangrenta na fria das guas, sendo arrastada pelo barco pesqueiro, gritando um grito de dor que  um punhal lancinante...
  -- Que  isso, Eunice?

  (p. 25)

  Uma colega se achega, pe a mo na sua testa banhada em suor. Ajuda na hora da provao. A gua escorre na pia, leva tudo pra dentro do cano. Eunice se refaz, toma um Gole d'gua:
  -- Obrigada, Isabel, estou melhor.
  -- So essas malditas sardinhas, ah, como eu detesto elas...
  -- Diz isso no - Eunice sorri, triste. -- So o nosso ganha-po.
  -- Quantos meses, irm?
  -- Cinco, Isabel, mas ainda vomito muito.  o cheiro de peixe...
  A outra passa a mo na prpria barriga:
  -- Espalha no, Tambm estou grvida, ms e pouco. Estou to feliz.

  (p. 27)

  3. A primeira escola

  At os trs anos foi aquela luta: a falta de creches, a insegurana de trabalhar no dia seguinte sem ter um lugar saudvel pra deixar o menIno. Se virou como pode: com vizinhas, as menInas de m vontade que sonhavam com emprego melhor, at uma tia velha, que veio morar uns tempos com eles pra olhar a criana; durou pouco,  a mulher no tinha pacincia, reclamava de tudo, e um dia Jos explodiu:
  -- Pelo amor de Deus, Eunice, que essa mulher me pe louco com tanta falao...

  (p. 28)

  A tia foi embora pro interior, Pra casa do filho.  Recomeou a via-crcis. At que descobriu o parque da prefeitura. Foi l num dia de tardinha, suplicou uma vaga. A diretora ouviu, confirmou:
  -- Traga o menino amanh bem cedo que eu encaixo ele.
  -- Deus lhe pague, dona...
  -- Mas sem fraldas, hein? No temos tempo pra trocar fraldas.
  Manh ensolarada. L vai Eunice, com Jesus pela mo trocando os passos midos, embolando as pernas gordas. "Tirou a fralda agora mesmo" (teve de mentir, que remdio!) e a me vai ensinando:
  -- Quando tiver vontade, Jesus, pede pra professora, no me vai fazer sujeira nas calas...
  O menino nem ai, olha um cachorro que dorme no canto da calada, ri pro mundo. Gosta de


passear com a me, atropelando os passos, descobrindo a vida. Que sabe ele da vida, esse menino Jesus? Ainda mama no peito, como de tudo,  um bom garfo, no rejeita comida. E ri, mostrando os dantes branquinhos, novos em folha, os olhos pestanudos e negros cheios de esperana e alegria.

  (p. 29)

  Chegam ao parquinho, onde outras mes, aflitas e esperanosas, entregam os filhos pequenos, esperam vagas pra outros tantos. Todas com ponto pra marcar em fbricas, escritrios, casas de famlia. Precisam do emprego, precisado salrio. Mulher pobre trabalha porque precisa, sempre foi assim - engraado quando as feministas tentam ensinar trabalho pras mulheres ricas, que no precisam... enquanto elas, as mulheres do povo, j sabem essa histria de cor e salteado...Se no trabalha no come, nem paga aluguel, nem compra roupa ou remdio. Precisa tanta falao no...  sair pra luta e pronto!
  Eunice entrega a trouxa de Jesus: uma muda de roupa, a mamadeira com leite.
  -- Ainda mama, Eunice?
  -- Mama, sim senhora; se puder fazer o favor, est fresquinho, tirei ainda agora do seio.
  A outra sorri, compreensiva:
  -- Precisa acabar com isso, mulher. D o seio de noite. Aqui ele vai ter de tomar em canequinha, como os outros.
  Eunice se desculpa, quase pede perdo:
  -- Eu no sabia.
  Sai rpida atrasada, entra no nibus super cheio, se espreme, quase se mata pra seguir em frente, desce na porta da fbrica, entra correndo, j passou da hora, o carto na bendita mquina acusa o atraso, desconto na certa...

  (p. 30)


  -- "Ser que o Jesus est se acostumando l no parque, ser que vo dar a mamadeira dele, meu Deus? Protege o meu menino, to sozinho no meio de tanta gente..."
  -- "Est sozinho no, Eunice" - respondia uma voz doce, do fundo da alma. -- Est no meio de gente, todas crianas de me que trabalham como voc; esquenta no, fica sossegada; a diretora pareceu boa pessoa, no vo judiar justo do seu menino, no ?"
  A colega chama sua ateno:
  -- To calada, Eunice. Problemas?
  -- Deixe o Jesus l no parquinho. Ser que cuidam bem das crianas.
  -- E voc tem escolha, minha santa? - A outra sorria triste.
  Tem seis filhos, se vira como pode, alguns em parque, outros em creche, uma luta diria. Mas se abranda, consola a me aflita que limpa sardinha
  -- Cuidam sim, nunca tive reclamao. A comida ate que  razovel. S no gostam de fralda. O Jesus j sabe usar o penico?
  Eunice at engole seco:
  -- Sabe nada, Sara. Tirei a fralda dele hoje; deve t fazendo a maior emporcalhao...
  -- Xi, mulher c vai ouvir quando voltar para pegar o menino, se prepare.
  -- Tinha escolha no. Tive de mentir, no gosto disso, mas que fazer, seno ela no aceitava o menino.
  -- Pacincia, mas se prepare.
  Sara espeta a barriga da sardinha com a ponta da tesoura, ela se abre inteira, num golpe s.
  -- Sabe o que me aconteceu ontem? O vizinho, o Alaor, gosta de pescaria. Me aparece com um balde de sardinha. Menina quase tive engulho.

  (p. 31)

Dei tudo para vizinha da esquerda sem ele perceber. S me faltava a geladeira cheia de sardinha, depois dessas abenoadas que eu vejo por aqui ...
  Eunice nem ouve, preocupada com o filho.
  Olha o relgio imenso na sua frente. Dez horas... ser que deram a mamadeira do Jesus, ou fizeram ele tomar de canequinha ?
  As horas passam, ela nem percebe o pensamento longe, longe. O sinal  dado para o almoo, ela ali parada, parou tudo, at a esteira que traz as sardinhas. Sara brinca:
  -- Acorda mulher, hora do rancho. Ou gosta tanto das malditas.

  (p. 33)

  Eunice cai em si, larga a tesoura ensangentada:
  -- Estou pensando em Jesus...
  No deu outra: vai at o parquinho, a diretora reclama:
  -- A senhora disse que o menino tinha tirado as fraldas. Ele se sujou todo, deu um trabalho...
  Os olhos de Eunice cheios de lgrimas:
  -- No tenho onde deixar o menino, me desculpe. Ele no quer saber de tirar as fraldas, ningum teve tempo de ensinar. Foi desespero.
  -- A outra se condi:
  -- Tudo bem, no ser a primeira nem a ltima a fazer isso. Trate de ensinar o garoto  noite. J disse e repito: no tenho tempo, nem as outras, pra fraldas.
  -- Ento a senhora vai ficar com o menino?
  -- Vou, gostei dele.  bem educado, tranqilo, come bem, no resmunga, tem bom gnio esse seu Jesus. As outras crianas gostam dele, foi o centro das atenes... o nico problemas so as fraldas.
  Quase vontade de abraar a outra:
  -- Fique tranqila que eu ensino ele direitinho...
  Toda noite Eunice, paciente, ensina Jesus a usar o penico.
  -- Senta, meu filho, assim, aprende direitinho; voc t ficando um homenzinho. Chega de bumbum cheio de fraldas, no ?
  Jos se incomoda, interrompe:
  -- Coitado do meu filho, no pode nem ser criana...

  (p. 34)

  -- No diz isso, Jos,  pro bem dele. Se no for o parque, onde vou deixar o menino? Colabora, vai!
  Jos suspira, acende o cigarro, liga a TV. Vida de pobre  dureza. Onde ser que anda aquela menina que esqueceram no nibus? Ser que o velho achou os pais dela, levou ela pra casa ou pra polcia, pro juizado de menores? Que remorso, meu Deus, devia ter trazido a menina para casa, no deixar ela assim com um estranho... mas ele tambm no era um estranho?

  (p. 35)

  Seus pensamentos so interrompidos pelo grito de Eunice:
  -- Ele aprendeu, aprendeu!
  Jos resmunga:
  -- Coitadinho do meu filho...
  Eunice, feliz, no dia seguinte entrega Jesus no parquinho.
  -- Tudo certo, ele j sabe usar o penico. No vai mais sujar a cala, eu garanto!
  Eunice, tranqila, limpa as sardinhas, na fbrica. Ser que Jesus aprendeu mesmo?

  (p. 36)

  Aprendeu sim.  inteligente o menino, no vai causar problemas, vai usar direitinho o penico de plstico que a diretora mostrou, ento vai poder ficar l no parquinho, com leite quente e comida bem feita, junto com as outras crianas...
  De repente, o grito, a correria. Uma operria se distraiu, prendeu uma das mos na esteira.
  -- Socorram, acudam... rpido!
  -- Que horror!...
  A gritaria se espalha, a mulher presa,  um corre-corre, chama o chefe das mquinas, desligar tudo aquilo. O que foi? O que no foi? No ligou a trava de segurana, se distraiu... O que  que to dizendo? Que desligam tudo para economizar energia - ser possvel? Minutos escorrem, a operria desmaia, telefonam pro corpo de bombeiros... h um clima de terror em toda parte; de repente as sirenes; so eles que chegam, ocupam o espao, desmontam a mquina, retiram a mulher exangue.
  Perdeu muito sangue, dos dedos que a mquina sugou, a maldita... a ambulncia esperando na estrada, um atropelo, mas graas a Deus j esto indo pro hospital. - Viu que horror, Eunice? Se distraiu, a mo foi pra dentro da esteira... ser mesmo que a trava foi desligada s por economia de luz?
  -- Dispersando, dispersando, -  a chefe da seo batendo palmas. -- O trabalho est suspenso esta manh, expediente s a tarde.
  O murmrio das funcionrias: Ser? No ser? Todas reunidas no ptio, algumas choram, falam da falta de segurana. Algum diz:
  -- Precisamos denunciar ao sindicato!

  (p. 37)

  4. O Desapontar da Chama

  Com seis anos, Jesus passou pra escola municipal, pr-primrio. Ficava bem junto ao parque, , ento era fcil: de manh numa, de tarde noutra. E Eunice podia trabalhar sossegada l na fbrica de sardinhas em lata. Estava um pouco mais velha e curvada de tanta correria e preocupao, por isso as colegas gozavam dela:
  -- Um filho s, mulher, pra muita aflio. Imagine se tivesse meia dzia...
  -- Eunice sorria, agora feliz:
  -- Um s que vale por muitos...

  (p. 38)

  Jesus era talentoso, logo cedo se revelou um bom desenhista. Gostava de desenhar figura de santos, principalmente o corao de Jesus, vermelho e sangrento, smbolo da agonia e da paixo. Desenhava a sagrada famlia e tantos outros santos que at brincavam com ele:
  -- Que diacho este menino que s desenha santo...
  No pequeno quarto, ele tinha um altarzinho com a imagem dos seus santos favoritos. E quando fazia anos ou era uma data especial, j sabiam o que ele ia pedir:
  -- Quero tal santo pro meu altar...
  O pai at implicava com essa mania do menino:
  -- Quero filho padre no, Eunice, quero filho bem macho pra me dar netos, continuar a vida, o meu nome...
  -- Tem nada a ver, Jos - replicava Eunice, unha e carne com o filho amado. -- Deixa o menino sossegado com os santos dele.  s questo de temperamento artstico...
  Jos ainda insistia:
  -- Olhe l, no me venha com histrias de batina...
  -- Mas padre nem usa mais batina, Jos.
  Na escola, Jesus era timo aluno, atencioso, agradvel para com os colegas e professores, estimando a cabea. De um bom senso a toda a prova, era sempre chamado para apartar brigas, pr ordem no pedao. Qualquer confuso, logo se escutava:
  -- Chama o Jesus que ele d um jeito...
  As professoras abriam um sorriso grande quando falavam do menino:
  -- Uma gracinha este Jesus...

  (p. 39)

  Amigo da me. Fazia feira com ela, carregava as sacolas mais pesadas, ajudava em casa. O pai, muito macho, no se conformava:
  -- Gosto disso no, homem no foi feito pra essas coisas, no me faa esse moleque virar um maricas...
  Jesus escancarava a risada:
  -- Bobagem, pai, uma coisa no tem nada a ver com a outra...
  -- Que outra, moleque; mal saiu das fraldas j t pensando nessas coisas...
  -- Que coisa, pai? - rebatia Jesus sorridente.
  -- Quem falou primeiro foi o senhor.
  -- Pensa que me pega no pulo, seu safado? - O pai catava Jesus, levantava pro alto, s risadas, uma famlia unida e feliz.
  -- Queria bem aquele filho, seu nico filho, que crescia jeitoso e bonito, um sorriso largo no rosto moreno, cheio de vida e juventude. Quer prazer, meu Deus ter um filho to bom, cujo olhar reflita s serenidade.

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  Descascando as batatas pro almoo do domingo, ao fazer a maionese, o prato preferido de Jesus, Eunice pensava:
  -- ''Protege o meu filho, Senhor, que  a maio riqueza que eu tenho na vida, protege ele, meu Deus...''
  Uma voz profunda, de dentro dela, cochichava mansa, mas terrvel:
  -- ''Tudo esta previsto, mulher... E nada do que possas pensar ou desejar mudar alguma coisa pra Jesus...''
  O tempo foi passando... passando... levemente, como um cavalo galopando suavemente na campina... passando, como as gotas de chuva caindo no vero calorento, como o frio das noites compridas do inverno... como as folhas caindo no cho, no outono... passando... e Jesus foi crescendo e se transformando num adolescente bonito, de pele bem morena e cabelos escuros, e uns olhos negros e profundos que tinham o sentido da noite cheia de estrelas.

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  As meninas da vizinhana foram se encantando com ele, e mais que todas a Sirlei, que morava bem na esquina e tinha covinhas no rosto e uns olhos azuis como dois miostis... E quando Jesus virava pela esquina ela estava sempre por ali no jardinzinho da casa, a olhar pra ele com uns olhos compridos que pareciam dizer: ''Que gracinha que voc , Jesus! Quer namorar comigo?''.
  Um dia Jesus parou e perguntou:
  -- Por que voc me olha tanto, garota das covinhas?
  -- Porque eu gosto de voc, garoto dos olhos negros...
  -- Ento quer ser minha garota, quer?
  -- Quero;  a coisa que eu mais quero no mundo...
  Vieram contar direto pra Eunice, naquela tarde mesmo, quando ela voltou da fbrica:
  -- O Jesus e a Sirlei esto namorando...
  -- Que bom - disse a Eunice --, ele t mesmo na idade de comear a amar algum...

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  Comentou com Jos, na hora da janta. Jesus nem estava, fazia um curso de arte noturna, pra desenvolver aquele dom maravilhoso que ele tinha de desenhar coisas lindas, uns santos de olhos e mo suaves e coraes sangrentos:
  -- O Jesus t amando, Jos.
  Jos sorriu:
  -- Que bom, Eunice, nosso filho t ficando um homem...
  A vida de Jesus agora era corrida. Estava com quinze anos, cursava j o primeiro colegial, de manh; de tarde ''pegava'' meio perodo numa loja, onde era balconista; de noite fazia o curso de desenho numa escola de arte. Sobrava tempo nenhum pra namorar; s aos sbados e domingos, quando ele e a Sirlei iam ao cinema, tomavam um sorvete no barzinho da esquina ou passeavam, de mos dadas, perdidos em si mesmos, na doura e na alegria daquele primeiro amor. E quando o Jesus beijava a Sirlei ela dizia:
  -- Te amo, Jesus te amo muito...
  Ele respondia:
  -- Eu tambm te amo, menina dos olhos azuis...
  -- Como vo ser os nossos filhos, Jesus?
  -- Ora - respondia ele, rindo --, todos bem morenos como eu e de covinha s como voc, mas de olhos azuis. J pensou que beleza?
  Beijavam-se muito e muito, e  volta deles cantava a vida e a juventude, confirmando aquele amor bonito de um garoto de quinze anos e uma garota de dezesseis, que dizia assim:
  -- Nasci primeiro pra te esperar, Jesus... pra amar voc!

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  O tempo foi passando... e chegou o fim do ano,  e o natal foi to bonito; Jesus guardou dinheiro um tempo e comprou um anel pra Sirlei, e ela deu pra ele uma pulseira de prata, com plaquinha, escrito: Jesus, te amo.
  Comeou um novo ano cheio de esperanas  e promessas, e Jesus teve seu salrio aumentado. Na loja todos gostavam dele, at o patro, e a clientela queria sempre ser atendida por aquele rapaz moreno e gentil, que atendia por um nome to diferente e mgico: Jesus!
  Jos ficou doente e foi pra caixa do INAMPS e Jesus at quis largar a escola pra trabalhar em perodo integral. Eunice no deixou:
  -- Continua estudando, meu filho, que eu agento as pontas l na fbrica.
  Limpando as sardinhas, que continuavam a chegar naquela esteira que parecia uma eternidade, girando e trazendo novas sardinhas, como se o mundo fosse um imenso cardume de peixes, Eunice pensava na vida:
  -- ''Coitado do Jos, to moo e sofrendo dos rins. Vai ver foi a profisso dele, sentado no nibus o dia inteiro, dirigindo naquele trnsito horrvel, agentando xingo de passageiros; um homem to bom, to calmo, sempre pronto a socorrer algum.

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Agora doente, tendo de fazer dilise, uma vez por semana aquele sufoco de hospital, a mquina ligada... Ah! Meu Deus, o que ainda est por vir?"
  Jos no se queixava, no queira tornar pior o ambiente da casa. Eunice, agora chefe da famlia, tendo que se preocupar com tudo; ele se sentindo to fraco... De repente parecia que a fora da vida escoava dele, passava toda para aquela mquina infernal, que por sua vez tornava sua vida possvel. At que um dia o mdico falou:
  -- Voc precisa de um transplante de rim, Jos. De preferncia de algum da sua famlia, que tenha o mesmo sangue, para que no haja rejeio. Quem pode ser?
  -- S tenho mulher e filho doutor, mas nunca que ia querer tirar um rim deles...
  -- Por que no? - insistiu o mdico. -- Se eles podem viver com um rim s, e outro pode salvar a sua vida, torn-lo um homem saudvel novamente...
  -- Tem certeza disso, doutor?
  -- Mas claro que tenho,  bastante comum at uma pessoa da famlia doar um rim para outro. Se voc concordar vou conversar com a sua mulher e o seu filho, fazer uns testes, ver de quem seria melhor a doao...
  Jos concordou. A vontade de viver era grande dentro dele. E o mdico chamou Eunice e Jesus, explicou toda a situao, que aquelas dilises eram uma violncia muito grande, que no resolviam o problema, apenas mantinham Jos vivo; que era preciso um transplante de rim sadio, e o ideal seria o de pessoa da famlia, no s pelo problema de rejeio, como tambm pelo tempo de esperam por um doador.

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  5 Est consumado...

  Foi ento que Jesus falou:
  -- Sossegue, pai, que eu do um rim pra voc!
  -- Quero no, filho,  muito sacrifcio...
  -- Voc me deu a vida, agora  a minha vez. Tenho dois rins, e posso viver muito bem com um s. Uma ir pra voc ficar bom de novo...
  Eunice ainda tentou:
  -- Voc, no, Jesus, deixe que eu fao a doao. Tenho mais idade, j vivi bastante, voc  ainda to jovem.
  Mas o mdico foi taxativo:

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  -- Melhor que seja do filho; cinqenta por cento de suas caractersticas genticas so do pai, o problema da rejeio  bem menor.
  Baterias de exames, tudo bem. Havia identificao de sangue, o mesmo tipo, muitas chance do transplante correr perfeitamente. Um tempo de preparao, inclusive psicolgica, pra Jesus, depois a operao... e torcer para que ambos ficassem bons, com vida normal.
  Jesus tirou licena na loja, pediu afastamento da amada academia de arte, trancou a matrcula na escola. E seus companheiros torciam por ele:
  -- Puxa, que coragem a sua, Jesus! Eu, hein? No sei se dava o meu rim, nem que fosse pro pai ou pra me...
  -- Nem tanto - sorria Jesus, mansamente. -- Eu tenho dois rins, no tenho? E tenho um medo de perder o meu pai,  to meu amigo!  s um ato de amor.

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  At o dono da fbrica de sardinhas em lata se comove com a coisa, procura Eunice e diz:
  -- Tire uns dias de licena pra cuidar do seu marido e do seu filho.
  Eunice tira o avental, volta pra casa, onde Jesus j espera por ela pra ser internado no hospital conveniado com o INAMPS. Jos j estava l, havia dias, fazendo preparativos para a operao. Estava fraco; aquelas dilises eram muito sofridas; teve um tratamento intensivo para agentar o transplante.
  Jesus e Eunice saindo da casa, a Sirlei vem correndo:
  -- Te cuida, Jesus, que eu fico esperando por voc...
  E a vizinhana fala l do muro:
  -- To bonito ver essa solidariedade de filho pra pai, quando esse mundo t to perdido, tanta violncia, tanto assalto... Ainda agora, sabe, Eunice, to dizendo que contrataram um tal de Chico Justiceiro pra organizar uma polcia aqui no bairro, dar uma corrida nos bandidos que assaltam a torto e a direito...
  Eunice arregalou os olhos:
  -- Esquadro da morte? Deus me livre; isso  pior que bandido!...
  Jesus chama:
  -- Vamos, me, t na hora.
  Sirlei se pendura no pescoo dele, chorando:
  -- Volta logo, meu amor.
  Jesus sorri:
  -- Reza por mim que eu volto, sim. Pra gente se casar, t bom?
  Eunice at ri do jeito de Jesus:

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  -- Que casar o qu, menino, nem saiu das fraldas ainda...
  -- Que me coruja - a vizinha ri --, no v que ele j  um homem?...
  -- Pra mim ele sempre vai ser um menino, o meu menino Jesus.
  Hospital, internamento... Deitado na cama branca, Jesus pensa na vida... Est certo do que vai fazer, uma coisa muito dele, muito ntima: salvar a vida do pai, daquele amigo Jos... depois voltar pra casa, um pouco fraco no incio, mas logo depois bom de todo, reiniciar sua vida; quer continuar a escola de arte, ser um desenhista famoso, fazer capas de livros, aprender pintura, pintar quadros... um artista de verdade! Pra ajudar a me e o pai na velhice, comprar uma casinha pra eles... talvez aquela mesmo com o jardinzinho florido... depois casar com Sirlei e ter uma poro de filhos morenos de olhos azuis...
  A enfermeira com a injeo corta os seus pensamentos, ele volta  realidade. Dali a alguns dias ser o transplante, toda uma preparao para nada dar errado, o pai cada vez mais fraco, o tempo core, no pra.
  -- Quando vai ser, doutor?
  -- Calma, meu filho, depois de a manh...
  -- Ainda?

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  Na maca, seguindo pra sala de cirurgia, encontra com o pai, que vem na direo contraria; sorriem um pro outro:
  -- Obrigado, filho, por me dar a vida...
  -- Obrigado, pai, s estou retribuindo...
  A picada na veia, conte at dez... um, dois, trs, Jesus apaga, Jos apaga logo ali do lado, vai comear o transplante... Na sala de espera, tero na s mos, Eunice reza, reza pra um Deus imenso e poderoso que esta em toda parte. S ele pode dar consolao nesta hora de agonia:
  -- Cuida do meu filho e do meu homem, Senhor, que so tudo que eu tenho na vida... que nada acontea a Jos nem a Jesus...
  O rim saudvel  retirado com cuidado infinito, enquanto um dos rins de Jos, murchou e quase sem vida nova entra no corpo cansado, o filho doando a vida ao pai, num caminho oposto ao da natureza, pelo milagre da cincia...
  Horas de trabalho... os cirurgies esto cansados. Fecham-se os cortes, suturam-se as cavidades. E Jos e Jesus so levados para a sala de recuperao, onde passaram as horas mais crtica.
  Um m6es depois Jos  um novo homem. A operao foi um sucesso absoluto, nem sombra de rejeio, ainda mais agora com as novas drogas que operam maravilhas. Mas o principal de tudo foi o doador ser seu prprio filho, com caractersticas genticas similares. Eunice no cabe em si de alegria. Cuidando do marido e do filho, que tambm merece cuidados especiais - mas  saudvel aquele Jesus, tirou de letra essa operao, nem parece que foi mutilado de um rim -, toda ela sorri, pelas palavras, pelos olhos, tendo de volta o companheiro amigo e vendo Jesus, que brinca com a Sirlei:

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  -- Aceita um marido com um rim s, meu amor?
  E a garota se abraa a ele:
  -- Aceito voc de qualquer jeito, doura...
  -- Tambm, com tanto soro que eu tomei, estou mesmo uma doura... Quando  que posso voltar ao trabalho e s aulas, me? O mdico falou?
  -- Amanh voc ter alta - diz Eunice. -- Mas v com calma, hein, nada de se cansar demais...
  Jos da uma palmada na mulher
  -- Est virando doutora,... e a senhora, quando volta as suas sardinhas?...
  -- Nem fale naquelas benditas! Que alvio ficar um tempo longe delas.
  -- Cada um no seu ofcio, me - consolou Jesus. -- Eu tambm pego umas freguesas enjoadas que me fazem descer tudo que  caixa de sapatos, e nem compram nada...
  -- Quer trocar? - disse Eunice, suspirando...
  No dia seguinte tinha que enfrentar a esteira rolante com a sardinhas prateadas, um cardume de vsceras que parecia nunca ter fim...
  Quase meia-noite. Jesus vem apressando, noite escura. Teve aula na escola de arte at as onze horas, tomou o ltimo nibus pro seu bairro distante. A me vive recomendando: ''No pare no caminho. Tem havido troca de tiros; esse Chico  um louco, atira primeiro, pergunta depois. Onde j se viu este poder na mo de um homem?''

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  Jesus atravessa a rua, vai pela a outra calada, onde o bar ainda esta aberto. Seu Manuel  amigo dele, gente fina. Sempre que passa convida prum cafezinho, uma cachacinha, mas Jesus no bebe, s uma cerveja aos domingos, abraado com Sirlei, e assim mesmo quando est muito calor.
  De repente a gritaria... os tiros... Jesus estaca, aflito, quer correr pro bar, nem tem tempo... Da esquina desemboca uma perseguio: so trs homens que corem, armados; viram apenas para atirar no Chico e nos companheiros que vem atrs...  assalto com certeza... Jesus recua, no tem pra onde fugir, ento entre ele e o bar salvador do Seu Manoel, que corre a cerrar as portas... Um tiro escapa, se perde no ar, atinge Jesus... e ele tomba, sem um suspiro, um palavra, um queixume...
  Os homens passam, deixam o rapaz estendido ali, na calada, como um cachorro sem dono... De repente seu Manoel abre uma portinhola, espia pra fora, reconhece Jesus estendido no cho, comea a gritar...
  Trs dias... Jesus no hospital, em estado de coma... Os mdicos fizeram todo o possvel, avisaram a famlia: s um milagre!
  Olhando a noite l fora, escura e vazia, Eunice reza, pede pelo milagre. Que  um milagre, meu Deus? Ter tido aquele filho bonito, saudvel, depois de tanto tempo de espera? Ter conseguido cri-lo, com tanto sacrifcio, quase sem ajuda, na luta diria pela sobrevivncia? Tudo passa por sua cabea, como um filme j assistido: o dia do batizado, quando o padre relutou em dar o nome de Jesus pra criana; as tardes em que chegava correndo da fbrica, pra amamentar o filho; a primeira vez em que ele foi pra creche e ainda usava fraldas, e o trabalho de ensin-lo a usar o penico; quando ele entrou no pr-primrio, todo importante no novo uniforme; a formatura do primeiro grau, o primeiro aluno da classe, ''um exemplo'', como diziam os professores; a tarde em que lhe contaram que Jesus tinha namorada e o pai falou: ''Nosso filho t ficando homem...''.

  (p. 53)

  O transplante de rim, a alegria pura de Jesus em poder dar sade novamente a seu pai e amigo Jos... tudo corria to bem, meu  Deus... Agora isso... uma bala estpida, perdida no meio da noite, pondo seu menino em coma naquele leito de hospital, os mdicos dizendo: ''S um milagre!''
  Ela acredita em milagre. O nascimento  do filho no foi um? Por que o milagre no se repete, e faz seu menino abrir aqueles olhos negros cheios de foras, de ternura e de vida?

  (p. 54)

  Daria a prpria vida, se fosse possvel pra ver Jesus levantar daquela cama, dizer no seu jeito de sempre: ''D pra fazer maionese, me? Poxa, eu adoro!''.
  Mas na cama ele nem se mexe, to plido, to distante. Em volta, alm dela, o pai e a Sirlei, abatida, os olhos inchados de chorar por seu amor. E a noite escura l fora, to silenciosa e fria, velando o corpo inerte...
  E as horas passando, escoando lentas... nada a fazer, seno esperar... Jos cabeceia de sono, ainda fraco da operao. A Sirlei afaga as mos de Jesus, frias, sobre o lenol. A enfermeira entra no quarto, regula o soro, sai de mansinho... nada mais a fazer
  Eunice acorda com um leve rudo, algo imperceptvel, nem sabe dizer o que . O que se modificou? Jos ainda dorme derreado na cadeira, a Sirlei esta debruada sobre a cama, tambm ela rendida ao sono... mas alguma coisa mudou, ela pressente; dentro dela brota uma luz.
  Acerca-se de mansinho da cama onde esta Jesus... Ento seu corao d um pulo no peito, porque ele esta de olhos abertos, e quando a v um leve sorriso insinua-se nos seus lbios.
  -- Me - ele diz, baixinho, to baixinho, mas  como se todos os sinos do mundo repicassem ao mesmo tempo, em aleluia!
  -- Estou aqui filho - responde Eunice, os olhos cheios de lgrimas. -- ''Ser o milagre, meu Deus? O milagre existe?''
  -- Onde estou? - pergunta Jesus, e seus olhos se movem curiosos, ao redor do quarto.

  (p. 55)

  -- Descanse filho - diz Eunice. - Agora tudo est bem, voc vai ficar bom.
  -- Eu vou viver, me? - torna a perguntar Jesus, os olhos agora aflitos, talvez a recordao do que se passou de volta a sua memria.
  -- Sim, meu filho, voc vai viver, voc vai viver, repete Eunice, as lgrimas deslizando pelo seu rosto cansado daqueles trs dias de desespero.
  Jesus fecha os olhos e cai num sono suave, tranqilo. Pela janela comea a entrar a claridade da manh... L fora, os pssaros cantam um novo dia que renasce, como chama!











